Método Wolbachia na Luta contra a Dengue: Novidade no Combate às Doenças Transmitidas por Mosquitos

O Brasil enfrenta epidemias recorrentes de dengue, zika e chikungunya, com milhões de casos notificados anualmente e crescente pressão sobre os sistemas de saúde. Diante desse cenário desafiador, uma tecnologia inovadora vem ganhando destaque internacional: o uso de mosquitos Aedes aegypti portadores da bactéria Wolbachia para bloquear a transmissão dessas arboviroses. Em 2025, o Brasil consolidou-se como protagonista mundial dessa estratégia, operando a maior biofábrica de mosquitos modificados do planeta.

Luciano Moreira e o reconhecimento internacional da ciência brasileira

índice desse Artigo

Luciano Moreira, engenheiro agrônomo, entomologista e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), foi incluído na prestigiada lista “Nature’s 10” de 2025. A lista anual da revista Nature destaca dez pessoas que moldaram a ciência no ano, reconhecendo contribuições científicas de impacto global em diferentes áreas do conhecimento.

Moreira foi reconhecido por liderar a maior implantação mundial do método Wolbachia, coordenando como CEO da Wolbito do Brasil — parceira do World Mosquito Program — a transição dessa tecnologia de pilotos experimentais para operações em larga escala. Sob sua liderança, o programa brasileiro alcançou capacidade de produzir até 5 bilhões de mosquitos Aedes aegypti com Wolbachia por ano, um volume sem precedentes no mundo.

O Brasil como protagonista, não apenas cenário

Essa visibilidade internacional reforça uma mudança importante de narrativa: o Brasil não é apenas um país que serve de cenário para testar tecnologias desenvolvidas em outros lugares, mas um protagonista ativo no desenvolvimento, adaptação e escalonamento de inovações científicas para controle de doenças tropicais. A expertise brasileira em entomologia, saúde pública e operações de larga escala em contextos urbanos complexos foi fundamental para que o método Wolbachia pudesse ser implantado em cidades com milhões de habitantes.

O que é a Wolbachia e como ela funciona

Wolbachia é uma bactéria intracelular comum em diversos insetos, presente naturalmente em cerca de 60% das espécies conhecidas, incluindo borboletas, libélulas e moscas-das-frutas. No entanto, essa bactéria não infecta naturalmente o mosquito Aedes aegypti, o principal vetor de dengue, zika, chikungunya e febre amarela urbana no Brasil e em outras regiões tropicais.

O processo de introdução da Wolbachia

Em laboratório, através de técnicas de microinjeção, ovos de Aedes aegypti recebem a bactéria Wolbachia. Os mosquitos que nascem desses ovos carregam a bactéria em suas células e, ao se reproduzirem, transmitem-na naturalmente para sua descendência. Esse processo de transmissão vertical — de mãe para filhos — permite que a Wolbachia se espalhe e se mantenha na população de mosquitos ao longo das gerações, sem necessidade de intervenções repetidas indefinidamente.

O mecanismo de bloqueio viral

Quando o Aedes aegypti carrega a bactéria Wolbachia, os vírus da dengue, zika, chikungunya e febre amarela urbana encontram grande dificuldade para se multiplicar dentro do inseto. A presença da bactéria cria uma espécie de competição por recursos celulares e ativa mecanismos de resposta imunológica no mosquito que dificultam a replicação viral.

Na prática, isso significa que um mosquito com Wolbachia, mesmo se picar uma pessoa infectada e ingerir vírus junto com o sangue, terá uma carga viral muito reduzida ou inexistente em suas glândulas salivares. Consequentemente, quando esse mosquito picar outra pessoa, a chance de transmitir a doença é dramaticamente reduzida ou eliminada.

Substituição populacional sustentável

A estratégia não busca eliminar o Aedes aegypti — o que seria extremamente difícil e poderia ter consequências ecológicas imprevisíveis —, mas sim substituir gradualmente a população de mosquitos selvagens por mosquitos que carregam Wolbachia e não conseguem transmitir vírus de forma eficiente.

Ao liberar mosquitos com Wolbachia em bairros de forma sistemática por semanas ou meses, a proporção de mosquitos portadores da bactéria na população local aumenta progressivamente. Quando essa proporção atinge níveis superiores a 60-70% e se mantém estável, cria-se uma barreira biológica duradoura que reduz significativamente a transmissão de arboviroses naquele território.

Evidências científicas de eficácia

A eficácia do método Wolbachia não é apenas uma promessa teórica, mas está respaldada por evidências robustas de ensaios clínicos controlados e estudos de campo em diferentes países e contextos epidemiológicos.

Ensaio clínico randomizado em Yogyakarta, Indonésia

O estudo AWED (Applying Wolbachia to Eliminate Dengue), conduzido em Yogyakarta, Indonésia, representa o padrão-ouro de evidência científica: um ensaio clínico randomizado controlado que comparou áreas onde mosquitos com Wolbachia foram liberados com áreas controle sem intervenção.

Os resultados, publicados em periódicos científicos de alto impacto, mostraram:

  • Redução de 77% na incidência de dengue nas áreas tratadas com Wolbachia em comparação com áreas controle
  • Redução de 86% nas hospitalizações por dengue, indicando que não apenas menos pessoas adoeceram, mas os casos que ocorreram foram menos graves
  • Impacto sustentado ao longo do período de acompanhamento, sem sinais de perda de eficácia

Esses resultados foram especialmente impressionantes porque o estudo foi conduzido em uma cidade com mais de 400 mil habitantes e alta densidade de mosquitos, condições que replicam os desafios encontrados em muitas cidades brasileiras.

Revisões sistemáticas e meta-análises

Revisões recentes que consolidam dados de múltiplos estudos em países como Singapura, Malásia, Austrália, Colômbia e Brasil apontam reduções consistentes na incidência de dengue entre 48% e 69%, com variações explicadas por diferenças nos níveis de cobertura de Wolbachia alcançados, tempo de acompanhamento e características epidemiológicas locais.

A consistência desses resultados em contextos geográficos, climáticos e epidemiológicos diversos fortalece a confiança na robustez do método como estratégia de saúde pública.

Resultados no Brasil: Niterói e Campo Grande

O Brasil não é apenas um implementador da tecnologia Wolbachia, mas também um importante gerador de evidências sobre sua eficácia em contextos urbanos complexos e com alta carga de arboviroses.

Niterói, Rio de Janeiro

Niterói foi uma das primeiras cidades brasileiras a implementar o método Wolbachia em larga escala, começando as liberações em 2015 e expandindo progressivamente para cobrir toda a cidade.

As avaliações de impacto realizadas pela Fiocruz e parceiros mostraram:

  • Redução de 69% nos casos de dengue nas áreas tratadas com Wolbachia em comparação com áreas não tratadas, após ajuste para fatores de confusão
  • Queda significativa também nos casos de chikungunya e zika, demonstrando que o efeito protetor se estende às múltiplas arboviroses transmitidas pelo Aedes aegypti
  • Manutenção de níveis elevados de Wolbachia na população de mosquitos ao longo dos anos, indicando sustentabilidade da intervenção

Niterói tornou-se um caso de referência internacional, recebendo visitas de delegações de diversos países interessados em replicar a experiência.

Campo Grande, Mato Grosso do Sul

Campo Grande implementou o método Wolbachia em larga escala entre 2020 e 2023, com a liberação de mais de 100 milhões de mosquitos Aedes aegypti portadores da bactéria em diversas regiões da cidade.

Estudo divulgado em 2025 analisou o impacto da intervenção após a Wolbachia atingir níveis estáveis na população de mosquitos. Os resultados mostraram:

  • Redução de 63,2% na incidência de dengue em 2024 nas zonas onde a Wolbachia se estabeleceu de forma consistente
  • Impacto observado mesmo em um ano epidêmico para dengue no Brasil, quando muitas cidades registraram recordes históricos de casos
  • Diferença significativa entre áreas com alta cobertura de Wolbachia e áreas ainda não tratadas

Campo Grande demonstra que o método pode funcionar em cidades médias do interior brasileiro, com características climáticas e urbanísticas diferentes das metrópoles costeiras.

Expansão para outras cidades brasileiras

Além de Niterói e Campo Grande, o método Wolbachia vem sendo implementado ou está em fase de expansão em outras cidades brasileiras, incluindo:

  • Belo Horizonte (MG)
  • Rio de Janeiro (RJ)
  • Petrolina (PE)
  • Diversas cidades da região metropolitana do Rio de Janeiro

A meta é expandir progressivamente a cobertura para proteger populações em áreas de alta transmissão de arboviroses em todas as regiões do país.

Como funciona a implantação do método Wolbachia nas cidades

A implementação do método Wolbachia em uma cidade é um processo complexo que envolve múltiplas etapas, desde a produção dos mosquitos até o monitoramento contínuo da população modificada.

Produção em biofábricas

O processo começa em biofábricas especializadas, estruturas que funcionam sob rigorosas normas de biossegurança e controle de qualidade. No Brasil, a biofábrica coordenada por Luciano Moreira em parceria com a Fiocruz é atualmente considerada a maior instalação do mundo dedicada à produção de mosquitos Aedes aegypti com Wolbachia.

O processo de produção envolve:

Criação de colônias matrizes: Mosquitos portadores de Wolbachia são mantidos em condições controladas de temperatura, umidade e alimentação, reproduzindo-se continuamente.

Coleta e processamento de ovos: Os ovos são coletados, contados e preparados para transporte ou armazenamento. Ovos de Aedes aegypti podem permanecer viáveis por meses, facilitando a logística de distribuição.

Controle de qualidade: Amostras regulares são testadas para confirmar a presença e estabilidade da Wolbachia, ausência de patógenos indesejados e viabilidade dos ovos.

Capacidade de produção: A estrutura brasileira pode produzir até 5 bilhões de mosquitos por ano, volume necessário para cobrir cidades grandes e múltiplas localidades simultaneamente.

Liberações programadas em bairros

A liberação de mosquitos com Wolbachia no ambiente urbano segue protocolos específicos desenvolvidos ao longo de anos de pesquisa:

Seleção de áreas prioritárias: Bairros são escolhidos com base em dados de vigilância epidemiológica (histórico de surtos e casos de dengue), características urbanas (densidade populacional, tipo de ocupação) e logística operacional.

Liberações semanais sistemáticas: Equipes treinadas circulam pelas ruas em rotas predefinidas, instalando recipientes com ovos de Aedes com Wolbachia ou liberando mosquitos adultos em pontos estratégicos. As liberações ocorrem semanalmente durante períodos de 3 a 6 meses, dependendo das condições locais.

Cobertura territorial: A densidade de liberação é calculada para que haja sobreposição suficiente entre os raios de voo dos mosquitos liberados, garantindo oportunidades de cruzamento com a população selvagem.

Período de estabelecimento: Após as liberações intensivas iniciais, a Wolbachia se espalha naturalmente através da reprodução dos mosquitos, aumentando progressivamente sua proporção na população até atingir níveis de equilíbrio geralmente acima de 60-70%.

Monitoramento entomológico e genético

O acompanhamento da proporção de Wolbachia na população de mosquitos é fundamental para avaliar o sucesso da intervenção e identificar necessidade de ajustes:

Instalação de armadilhas: Armadilhas específicas para mosquitos Aedes são instaladas em residências, escolas, unidades de saúde e outros pontos estratégicos em todo o território tratado.

Coleta e análise: Os mosquitos capturados são levados para laboratório, onde são identificados taxonomicamente e testados para presença de Wolbachia usando técnicas moleculares (geralmente PCR).

Curva de ocupação: Os dados de múltiplas coletas ao longo do tempo permitem construir uma “curva de ocupação” mostrando como a proporção de Wolbachia na população de mosquitos evolui. O objetivo é atingir e manter níveis acima de 60-70%.

Ajustes operacionais: Se o monitoramento detecta áreas onde a Wolbachia não se estabeleceu adequadamente ou está em declínio, liberações adicionais podem ser programadas.

Engajamento comunitário: pilar fundamental do sucesso

A participação e aceitação das comunidades são absolutamente essenciais para o sucesso do método Wolbachia. Diferentemente de estratégias de controle vetorial que não dependem da cooperação ativa da população, o método Wolbachia requer que as comunidades permitam e apoiem as liberações.

Comunicação prévia e transparente: Antes do início das liberações em qualquer bairro, equipes de comunicação realizam trabalho intenso de educação e diálogo. Reuniões com lideranças comunitárias, associações de moradores, escolas e unidades de saúde explicam o que é a Wolbachia, como ela funciona e por que os mosquitos estão sendo liberados.

Esclarecimento de dúvidas e combate a boatos: Um dos maiores desafios é esclarecer que os mosquitos com Wolbachia não são geneticamente modificados (a Wolbachia é uma bactéria introduzida, não uma modificação do DNA do mosquito) e que a bactéria não infecta humanos, não se transmite de mosquitos para pessoas e é completamente segura para a saúde humana e animal.

Participação ativa: Muitas famílias voluntariamente permitem a instalação de armadilhas de monitoramento em suas casas, contribuindo para a avaliação contínua do programa. Escolas frequentemente se envolvem com atividades educativas sobre controle vetorial e saúde pública.

Construção de confiança: O trabalho de engajamento constrói percepção de que o projeto é uma parceria entre ciência e comunidade, não uma imposição externa. Essa confiança é fundamental para prevenir resistência local, vandalização de equipamentos ou recusa de acesso às propriedades.

Segurança do método Wolbachia

A segurança é uma preocupação legítima sempre que novas tecnologias de controle vetorial são propostas. No caso da Wolbachia, múltiplas linhas de evidência sustentam a segurança do método.

A Wolbachia não infecta humanos

Wolbachia é uma bactéria estritamente intracelular de insetos. Ela não tem capacidade biológica de infectar células de mamíferos, incluindo humanos. Mesmo se uma pessoa for picada por milhares de mosquitos com Wolbachia ao longo da vida, a bactéria não entrará em seu organismo nem causará qualquer efeito.

Presença natural em outros insetos

Wolbachia está presente naturalmente em cerca de 60% das espécies de insetos conhecidas, incluindo muitos insetos que convivem próximos aos humanos há milênios. Não há registro na literatura científica de qualquer problema de saúde humana ou animal causado pela Wolbachia em nenhum contexto.

Avaliações de biossegurança

Antes de qualquer liberação, o método Wolbachia passa por rigorosas avaliações de biossegurança conduzidas por comissões técnicas nacionais e internacionais. No Brasil, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) avaliou e aprovou o método após análise detalhada dos riscos potenciais.

Ausência de modificação genética

Diferentemente de algumas outras tecnologias de controle vetorial em estudo, o método Wolbachia não envolve modificação genética dos mosquitos. A Wolbachia é introduzida nos ovos, mas o DNA do mosquito permanece inalterado. Isso simplifica questões regulatórias e tende a gerar maior aceitação pública.

Limites, desafios e necessidade de integração com outras estratégias

Apesar dos resultados promissores, o método Wolbachia não é uma solução isolada para o controle de arboviroses e enfrenta desafios operacionais e científicos que precisam ser continuamente endereçados.

Variação de eficácia ao longo do tempo

Pesquisas recentes destacam que a eficácia em campo pode variar dependendo de múltiplos fatores:

Cobertura de Wolbachia: A proteção é máxima quando a proporção de mosquitos com Wolbachia permanece consistentemente acima de 60-70%. Quedas abaixo desse limiar, seja por influxo de mosquitos selvagens de áreas vizinhas ou por falhas operacionais, podem reduzir o impacto.

Fatores climáticos: Condições ambientais extremas (calor ou frio intensos) podem afetar a sobrevivência dos mosquitos com Wolbachia ou a estabilidade da bactéria.

Densidade de mosquitos: Em áreas com densidade extremamente alta de Aedes aegypti, pode ser mais difícil atingir rapidamente os níveis de substituição necessários.

Manutenção de longo prazo: Há sinais em alguns estudos de perda parcial de impacto quando a vigilância entomológica é descontinuada ou quando falhas operacionais permitem que a proporção de Wolbachia decline.

Necessidade de vigilância contínua

O método Wolbachia não é uma intervenção de “aplicar e esquecer”. Requer monitoramento entomológico contínuo, capacidade de responder rapidamente a declínios na cobertura de Wolbachia, e manutenção de estruturas de produção e liberação quando necessário.

Isso implica custos recorrentes e necessidade de comprometimento de longo prazo por parte dos gestores de saúde pública.

Integração com controle vetorial tradicional

Organismos como o World Mosquito Program e secretarias de saúde enfatizam de forma consistente que Wolbachia não substitui outras medidas de controle vetorial, mas as complementa:

Eliminação de criadouros: Continua sendo fundamental eliminar recipientes que acumulam água parada onde o Aedes aegypti se reproduz. A Wolbachia reduz a capacidade de transmissão dos mosquitos, mas não reduz sua população.

Saneamento básico: Investimentos em abastecimento regular de água, coleta adequada de lixo e drenagem são essenciais para reduzir a densidade de mosquitos no ambiente.

Campanhas de conscientização: A população precisa continuar sendo educada sobre hábitos que reduzem a proliferação do vetor.

Controle químico estratégico: Em situações de surto ou alta densidade vetorial, o uso de inseticidas ainda pode ser necessário, embora deva ser feito de forma racional para evitar resistência.

Vacinação contra dengue: Onde vacinas contra dengue estiverem disponíveis e aprovadas, ampliar a cobertura entre populações elegíveis adiciona uma camada adicional de proteção.

Desafios de escala e financiamento

Expandir o método Wolbachia para cobrir todas as áreas de alta transmissão de arboviroses no Brasil requer investimentos significativos:

Infraestrutura de produção: Manter e expandir biofábricas, garantir insumos, equipamentos e recursos humanos especializados.

Logística de distribuição: Transportar ovos ou mosquitos adultos para cidades distantes mantendo condições adequadas de temperatura e viabilidade.

Operações de campo: Equipes treinadas para realizar liberações e monitoramento em múltiplas cidades simultaneamente.

Sustentabilidade financeira: Garantir financiamento contínuo para operações de longo prazo, incluindo fases de manutenção após o estabelecimento inicial da Wolbachia.

Esses desafios exigem comprometimento político, alocação adequada de recursos e coordenação entre diferentes níveis de governo.

Wolbachia no contexto das estratégias globais de controle de arboviroses

O método Wolbachia insere-se em um contexto mais amplo de inovações científicas e tecnológicas para o controle de doenças transmitidas por vetores.

Comparação com outras tecnologias

Diversas abordagens inovadoras estão em diferentes estágios de desenvolvimento e implementação:

Mosquitos geneticamente modificados (OX5034): Mosquitos machos geneticamente modificados que transmitem um gene letal para a prole feminina, reduzindo a população de mosquitos. Essa abordagem, diferentemente da Wolbachia, visa eliminação populacional e enfrenta questões regulatórias e de aceitação mais complexas.

Irradiação (Técnica do Inseto Estéril): Mosquitos machos são esterilizados por radiação e liberados para competir com machos selvagens. As fêmeas que cruzam com machos estéreis não geram descendência viável. Eficaz, mas com custos operacionais altos.

Novas gerações de inseticidas: Desenvolvimento de produtos com novos modos de ação para superar resistência e reduzir impacto ambiental.

Armadilhas inovadoras: Dispositivos que atraem e matam mosquitos de forma mais seletiva e eficiente.

Cada tecnologia tem vantagens e limitações específicas. A Wolbachia destaca-se pela sustentabilidade (estabelecimento de longo prazo sem necessidade de liberações contínuas indefinidamente), segurança (sem modificação genética, bactéria naturalmente presente em insetos) e aceitação social relativamente alta.

Alinhamento com metas da OMS

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu metas ambiciosas para redução da carga de dengue e outras arboviroses globalmente. O método Wolbachia é reconhecido pela OMS como uma ferramenta promissora que pode contribuir significativamente para alcançar essas metas, especialmente em regiões urbanas densamente povoadas onde métodos tradicionais de controle vetorial têm eficácia limitada.

Perspectivas futuras para o método Wolbachia no Brasil

O reconhecimento internacional de Luciano Moreira e a consolidação do Brasil como líder mundial na implementação do método Wolbachia abrem perspectivas importantes para os próximos anos.

Expansão geográfica

A meta de longo prazo é expandir progressivamente a cobertura de Wolbachia para todas as cidades brasileiras de médio e grande porte com alta carga de dengue e outras arboviroses. Isso representaria proteção para dezenas de milhões de brasileiros vivendo em áreas de risco.

Integração com sistemas de vigilância

Desenvolver integração mais estreita entre dados de cobertura de Wolbachia e sistemas de vigilância epidemiológica permitiria avaliar impacto em tempo real e identificar precocemente situações que requerem intervenções adicionais.

Pesquisa sobre durabilidade e otimização

Continuar pesquisas sobre fatores que afetam a manutenção de longo prazo da Wolbachia nas populações de mosquitos, desenvolvimento de linhagens ainda mais eficientes na bloqueio viral, e otimização de protocolos de liberação para reduzir custos operacionais.

Exportação de conhecimento e tecnologia

O Brasil está em posição de exportar conhecimento técnico, protocolos operacionais e até tecnologia de produção para outros países tropicais que enfrentam problemas similares com arboviroses. Isso representa não apenas uma oportunidade de cooperação internacional, mas também de desenvolvimento econômico em um setor de biotecnologia de ponta.

Aplicação a outras doenças

Embora o foco atual esteja em dengue, zika e chikungunya, pesquisas exploram se o método Wolbachia poderia ser adaptado para controlar outras doenças transmitidas por vetores, ampliando potencialmente seu impacto em saúde pública.

O papel da comunicação científica e engajamento público

O sucesso de longo prazo do método Wolbachia depende não apenas de eficácia técnica e viabilidade operacional, mas também de sustentação de apoio público e político informado.

Comunicação de ciência de qualidade

Comunicar adequadamente o que é a Wolbachia, como funciona, quais são as evidências de eficácia e segurança, e quais são suas limitações é responsabilidade compartilhada entre cientistas, profissionais de saúde, jornalistas e comunicadores científicos.

Evitar tanto o otimismo exagerado quanto o ceticismo infundado, apresentar dados de forma honesta e contextualizada, e estar aberto a responder dúvidas legítimas são elementos centrais dessa comunicação.

Combate à desinformação

Como qualquer inovação científica de destaque, o método Wolbachia tem sido alvo de desinformação em redes sociais e grupos anticiência. Boatos sobre “mosquitos transgênicos perigosos”, “experimentos em populações vulneráveis” ou “conspirações de empresas farmacêuticas” circulam periodicamente.

Combater essa desinformação requer estratégias proativas de comunicação, parcerias com influenciadores científicos confiáveis, e canais acessíveis onde a população possa tirar dúvidas de forma respeitosa e fundamentada em evidências.

Participação em decisões de saúde pública

O engajamento comunitário no método Wolbachia vai além da aceitação passiva da intervenção. Em muitos locais, representantes comunitários participam de discussões sobre priorização de áreas, adaptação de protocolos às realidades locais e avaliação de resultados.

Esse modelo de participação qualificada, onde comunidades têm voz ativa informada por evidências, representa um avanço importante na democratização de decisões em saúde pública.

Uma ferramenta promissora em um arsenal mais amplo

O método Wolbachia representa um avanço científico e tecnológico significativo no enfrentamento das arboviroses, com evidências robustas de eficácia e segurança acumuladas ao longo de mais de uma década de pesquisas e implementações em diferentes países.

O protagonismo brasileiro nessa tecnologia, consolidado pelo reconhecimento internacional de Luciano Moreira e pela operação da maior biofábrica de mosquitos com Wolbachia do mundo, demonstra a capacidade do país de liderar inovações em saúde global quando há investimento adequado em ciência, tecnologia e saúde pública.

Os resultados obtidos em Niterói, Campo Grande e outras cidades brasileiras, com reduções de 60% a 70% nos casos de dengue, confirmam que o método pode ter impacto real na redução da carga dessas doenças, aliviando sofrimento humano e pressão sobre sistemas de saúde.

No entanto, clareza sobre limites é tão importante quanto celebração de sucessos. O método Wolbachia não é uma solução mágica que dispensa outras estratégias de controle vetorial, não elimina a necessidade de investimentos em saneamento básico, e requer comprometimento de longo prazo para monitoramento e manutenção.

O caminho mais promissor é a integração inteligente da Wolbachia em um arsenal mais amplo de ferramentas de saúde pública: controle de criadouros, uso racional de inseticidas, campanhas educativas, vacinação onde disponível, e fortalecimento da vigilância epidemiológica. Essa abordagem integrada, sustentada por evidências científicas sólidas e participação ativa das comunidades, oferece a melhor perspectiva de redução sustentável da carga de dengue, zika e chikungunya no Brasil.

A trajetória do método Wolbachia de conceito científico inovador a ferramenta de saúde pública implementada em larga escala ilustra como investimento em pesquisa de longo prazo, parceria entre instituições acadêmicas e organizações internacionais, diálogo com comunidades e comprometimento de gestores públicos podem convergir para gerar impacto real na qualidade de vida da população.

Fonte: AgenciaBrasil.ebc.com.br

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima