Álcool e drogas: impactos e políticas de prevenção

O consumo de álcool e outras drogas no Brasil é disseminado e heterogêneo: o Lenad registra início precoce entre adolescentes e maior prevalência de álcool, seguido por tabaco e maconha, com variações por região, sexo e idade. O uso provoca danos físicos (doenças hepáticas, cardiovasculares), neurológicos e mentais (dependência, depressão), aumenta risco de infecções e acidentes e acentua vulnerabilidades sociais. A resposta do SUS articula atenção básica (UBS), cuidado psicossocial (CAPS) e centros especializados, combinando acolhimento, manejo clínico e articulação intersetorial; ações de prevenção, redução de danos e reabilitação comunitária são fundamentais para mitigar impactos sociais e econômicos e exigem políticas integradas e fortalecimento da rede.

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O álcool e outras drogas representam um desafio de saúde pública no Brasil, com dados que indicam início precoce e alta prevalência entre jovens e adultos. O texto sintetiza riscos, políticas de prevenção e caminhos de atenção no SUS.

Panorama nacional do consumo de álcool e outras drogas

O consumo de álcool e outras drogas no Brasil mostra padrões heterogêneos: o álcool permanece como a substância mais utilizada, seguido pelo tabaco e por ilícitos como maconha e cocaína. Estudos nacionais, inclusive o Lenad, apontam início precoce do uso entre adolescentes e diferenças marcantes por região, sexo e nível socioeconômico.

Aspectos relevantes do panorama incluem:

  • Prevalência por faixa etária: maior uso em jovens adultos, com sinais de experimentação precoce na adolescência.
  • Distribuição regional: variações entre regiões metropolitanas e áreas rurais, influenciadas por fatores culturais e oferta de serviços.
  • Polidrug use: ocorrência frequente de uso simultâneo de álcool, tabaco e outras substâncias, aumentan-do riscos relacionados à saúde.
  • Determinantes sociais: desigualdades econômicas, falta de oportunidades e vulnerabilidade social elevam a exposição e o risco de uso nocivo.
  • Tendências temporais: mudança nos padrões de consumo de algumas drogas e persistência do consumo de álcool em diferentes grupos populacionais.

Esses elementos orientam a vigilância epidemiológica e a necessidade de estratégias de prevenção e de atenção que considerem diversidade regional e determinantes sociais, ampliando a capacidade de resposta do sistema de saúde.

Dados do Lenad: prevalência por substância e faixa etária

Os dados do Lenad evidenciam diferenças na prevalência por substância segundo a faixa etária: o álcool mantém-se como a substância mais consumida em quase todas as idades, seguido por tabaco e maconha; cocaína e outras drogas ilícitas apresentam prevalência menor, concentrada principalmente entre os mais jovens.

Pontos relevantes observados no levantamento:

  • Adolescentes: altas taxas de experimentação, especialmente para álcool e maconha.
  • Jovens adultos (18–34 anos): maior prevalência de uso atual e maior ocorrência de poliuso.
  • Adultos maduros e idosos: predominância de consumo de álcool e menor frequência de uso de ilícitos.
  • Diferenças por sexo: homens tendem a apresentar taxas mais elevadas para várias substâncias; mulheres mostram padrões específicos e vulnerabilidades distintas.
  • Uso de medicamentos e inalantes: identificado em grupos e contextos específicos, exigindo atenção epidemiológica.

Consequências do álcool e drogas para a saúde física e mental

O uso de álcool e outras drogas provoca danos físicos e mentais que variam conforme a substância, a frequência e características individuais. Os efeitos podem ser agudos ou crônicos e frequentemente se sobrepõem.

  • Saúde física: doenças hepáticas (esteatose, hepatite alcoólica, cirrose), problemas cardiovasculares (hipertensão, arritmias, acidente vascular cerebral), maior risco de vários tipos de câncer (boca, esôfago, fígado, mama) e comprometimento respiratório por uso de inalantes ou tabaco.
  • Trauma e acidentes: intoxicação aguda aumenta risco de quedas, acidentes de trânsito e lesões traumáticas; overdose pode levar a insuficiência respiratória e morte.
  • Infecções transmissíveis: uso de drogas injetáveis está associado a maior incidência de HIV, hepatites B e C e outras infecções por compartilhamento de material.
  • Comprometimento neurológico: déficits cognitivos, neuropatias periféricas, convulsões e alterações da memória e do processamento executivo.
  • Saúde reprodutiva e desenvolvimento: consumo durante a gestação pode causar a síndrome alcoólica fetal e prejuízos no desenvolvimento infantil.

Saúde mental: dependência, síndromes de abstinência (ansiedade, tremores, convulsões no caso do álcool), transtornos do humor (depressão, distimia), transtornos de ansiedade, crises psicóticas induzidas por substâncias (cocaína, anfetaminas) e aumento do risco de comportamento suicida.

  • Comorbidade: transtornos mentais pré-existentes podem ser agravados pelo uso de drogas, e o uso de substâncias pode mimetizar ou precipitar sintomas psiquiátricos.
  • Impacto funcional: prejuízos no trabalho, nas relações sociais e no autocuidado decorrentes dos efeitos físicos e mentais.

Essas manifestações variam em intensidade e duração, podendo ocorrer de forma isolada ou combinada, o que complica o diagnóstico e o manejo clínico.

Fatores de risco e determinantes da dependência química

Vários fatores aumentam o risco de desenvolver dependência química, interagindo entre si e influenciando tanto a iniciação do uso quanto a progressão para padrões nocivos. Entre os principais estão elementos biológicos, sociais, psicológicos e ambientais.

  • Vulnerabilidade biológica e genética: predisposição hereditária, diferenças no metabolismo de substâncias e variações neurobiológicas que aumentam a suscetibilidade à dependência.
  • Idade de início: consumo na infância e adolescência eleva a probabilidade de desenvolver transtornos por uso de substâncias na vida adulta.
  • Transtornos mentais: depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático e transtornos de personalidade frequentemente coexistem, favorecendo o uso como forma de automedicação.
  • História familiar e violência: ambiente familiar disfuncional, abuso ou negligência na infância, exposição à violência doméstica e traumas aumentam significativamente o risco.
  • Determinantes sociais: pobreza, desemprego, escolaridade baixa, habitação precária e falta de acesso a serviços de saúde e lazer criam condições que facilitam o uso nocivo.
  • Contexto comunitário e oferta: disponibilidade de substâncias, redes de comércio ilícito, normalização social do consumo e falta de oportunidades comunitárias contribuem para a circulação e o consumo.
  • Pressão de pares e culturais: influência de amigos, festas, rituais sociais e normas culturais que legitimam o uso, especialmente entre jovens.
  • Uso de medicamentos prescritos: uso inadequado ou prolongado de benzodiazepínicos, opioides e outros fármacos pode evoluir para dependência sem adequada supervisão clínica.
  • Condições institucionais: encarceramento, privação social e contextos de trabalho de alto risco (ex.: turnos, exposição a estresse extremo) são fatores que aumentam vulnerabilidade.

Esses fatores agem de forma acumulativa: a presença simultânea de determinantes sociais adversos e vulnerabilidades individuais eleva a probabilidade de cronificação do uso e dificulta o acesso a estratégias eficazes de prevenção e tratamento.

Tratamento no SUS: UBS, CAPS e Centros especializados

No SUS, o tratamento de pessoas com uso nocivo de substâncias é organizado em rede, com diferentes pontos de atenção: UBS como porta de entrada, CAPS para atenção psicossocial e centros especializados para casos que requerem cuidados ambulatoriais ou internamentos. Cada componente tem funções complementares para acolhimento, avaliação e seguimento.

UBS: realiza identificação precoce, acolhimento, triagem e intervenções breves; faz encaminhamento para serviços especializados quando necessário e garante acompanhamento longitudinal e integração com atenção básica à saúde.

CAPS: equipes multiprofissionais oferecem cuidado psicossocial contínuo, atendimentos em grupo e individuais, manejo ambulatorial de abstinência, atividades terapêuticas, reinserção social e articulação com família e comunidade. O modelo prioriza o vínculo, a prática comunitária e a redução de danos.

Centros especializados: incluem ambulatórios de referência, leitos hospitalares para desintoxicação e unidades de atenção intensiva quando indicado. Nessas unidades são realizadas avaliações clínicas complexas, tratamentos farmacológicos sob supervisão, acompanhamento médico e encaminhamentos intersetoriais.

  • Intervenções comuns: acolhimento, avaliação biopsicossocial, plano terapêutico individualizado, psicoterapias, grupos psicoeducativos e suporte social.
  • Manejo farmacológico: tratamentos para síndrome de abstinência e comorbidades, sempre com supervisão médica e integração à terapia psicossocial.
  • Redução de danos: estratégias para minimizar riscos, como orientação, troca de materiais quando aplicável e acesso a naloxona e outros recursos, conforme protocolos locais.
  • Articulação em rede: encaminhamentos entre UBS, CAPS, hospitais, assistência social, justiça e serviços de trabalho/educação para ações integradas de recuperação.

Desafios persistem, como desigualdades de acesso, necessidade de formação contínua das equipes e ampliação de vagas especializadas, o que exige planejamento e investimento para fortalecer a rede de atenção.

Ações de prevenção, redução de danos e reabilitação comunitária

Ações de prevenção focam em educação escolar e comunitária, campanhas informativas baseadas em evidências, regulação de marketing e medidas de redução da disponibilidade (políticas de preço e controle de pontos de venda). Programas escolares e de juventude trabalham habilidades socioemocionais, resistência à pressão de pares e promoção de alternativas saudáveis.

Redução de danos inclui oferta de kits de prevenção, acesso a preservativos, salas de acolhimento, programas de troca de materiais quando aplicável, distribuição de naloxona e orientações para uso mais seguro. Essas medidas visam diminuir mortalidade, infecções e consequências agudas sem condenar ou excluir pessoas em uso.

Reabilitação comunitária privilegia estratégias de reinserção social: grupos de apoio, oficinas de capacitação, acompanhamento psicossocial e articulação com serviços de emprego, educação e moradia. A participação de redes comunitárias e de representantes com experiência vivida fortalece vínculos e aderência ao tratamento.

  • Intersetorialidade: integração entre saúde, assistência social, educação e justiça para ações coordenadas.
  • Envolvimento familiar: suporte e orientação à família para acolhimento e continuidade do cuidado.
  • Monitoramento e avaliação: uso de indicadores para ajustar programas e ampliar práticas eficazes localmente.
  • Capacitação profissional: formação contínua de equipes para atendimento humanizado, com foco em redução de danos e inclusão.

Impactos sociais e econômicos e a necessidade de políticas integradas

O uso nocivo de álcool e outras drogas gera impactos sociais e econômicos significativos: aumento dos custos com atenção à saúde, sobrecarga nos serviços de emergência, perda de produtividade laboral e custos relacionados ao sistema judicial e à segurança pública.

Consequências sociais incluem desestruturação familiar, estigmatização, aumento da vulnerabilidade social, maior incidência de situações de rua e dificuldades de reinserção laboral e educacional. Esses efeitos afetam particularmente populações já em situação de pobreza e exclusão.

  • Custos econômicos: despesas com tratamento, internações, programas de redução de danos, além de perda de renda e produtividade para indivíduos e famílias.
  • Impacto intersetorial: maior demanda por assistência social, habitação, serviços jurídicos e medidas de segurança, exigindo alocação de recursos em múltiplos setores.
  • Efeitos na educação e trabalho: evasão escolar, menor qualificação da força de trabalho e aumento do desemprego entre pessoas em uso nocivo.
  • Desigualdade territorial: regiões com menor oferta de serviços enfrentam maiores consequências sociais e menor capacidade de resposta.

A complexidade dos impactos evidencia a necessidade de políticas integradas que articulem saúde, assistência social, educação, trabalho, habitação e justiça. Estratégias coordenadas devem incluir prevenção baseada em evidências, ampliação de acesso ao tratamento, programas de reinserção socioeconômica e avaliação contínua de resultados.

Medidas práticas envolvem investimento em atenção básica e serviços comunitários, políticas de proteção social que reduzam a vulnerabilidade, capacitação de equipes intersetoriais e mecanismos de governança para monitorar e ajustar ações conforme evidências locais.

Perguntas frequentes sobre álcool e outras drogas

Qual é a substância mais consumida no Brasil?

O álcool é a substância mais consumida; tabaco e maconha têm alta prevalência e há início precoce do uso durante a adolescência.

Quais são os principais riscos para a saúde?

Riscos incluem doenças hepáticas e cardiovasculares, comprometimento neurológico, infecções por uso injetável, transtornos mentais e risco de overdose.

Como o SUS organiza o atendimento para dependência química?

Atendimento em rede: UBS para acolhimento e triagem, CAPS para cuidado psicossocial contínuo e centros especializados para tratamento ambulatorial e internação quando necessário.

O que significa redução de danos na prática?

Conjunto de medidas que diminuem riscos e mortalidade (troca de materiais, kits de prevenção, distribuição de naloxona, orientação) sem criminalizar o usuário.

Fonte: Bvsms.saude.gov.br

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