Novos Tratamentos no SUS: Por Que Incorporações Tecnológicas Aumentam Filas em Vez de Reduzi-las

Existe uma crença amplamente difundida de que quando o Sistema Único de Saúde incorpora um novo medicamento, vacina ou tecnologia de saúde, o acesso dos pacientes melhora automaticamente e as filas diminuem. A realidade operacional demonstra consistentemente o oposto: na maioria dos casos, incorporações tecnológicas aumentam as filas no curto e médio prazo, mesmo quando representam avanços médicos legítimos.

Essa contradição aparente revela uma dinâmica fundamental do sistema público de saúde que raramente é explicada com clareza ao público. Compreender essa mecânica é essencial para ter expectativas realistas sobre o que significam os anúncios de novas tecnologias disponíveis no SUS.

A Mecânica Invisível da Incorporação Tecnológica

Quando uma nova tecnologia é oficialmente incorporada ao SUS, três fenômenos ocorrem simultaneamente e criam um efeito paradoxal sobre o acesso real dos pacientes.

O primeiro fenômeno é a explosão da demanda reprimida. Milhares ou milhões de pessoas que já tinham a condição de saúde mas não buscavam tratamento por saber que ele não estava disponível no sistema público passam a procurar as unidades de saúde. Essa demanda sempre existiu de forma latente, mas agora se manifesta concretamente no sistema.

O segundo fenômeno é que a capacidade instalada permanece praticamente inalterada no momento da incorporação. O número de médicos, enfermeiros, salas de atendimento, equipamentos e horários disponíveis não aumenta magicamente quando uma portaria é publicada. A estrutura física e humana que atendia a demanda anterior continua a mesma.

O terceiro fenômeno, consequência direta dos dois anteriores, é o alongamento das filas existentes. Mais pessoas procurando atendimento com a mesma capacidade de resposta do sistema resulta matematicamente em tempo de espera maior para todos, incluindo quem já estava aguardando.

Caso 1: Vacina Nacional Contra Covid-19

Em 2026, o SUS passou a disponibilizar uma vacina nacional contra Covid-19, reduzindo a dependência de fornecedores internacionais e aumentando a segurança do abastecimento nacional. Do ponto de vista estratégico de saúde pública e soberania sanitária, essa incorporação representa conquista significativa.

Do ponto de vista operacional do acesso individual, no entanto, essa incorporação não criou novas salas de vacinação, não contratou mais enfermeiros e não ampliou os horários de funcionamento das unidades básicas de saúde. O recurso humano e a infraestrutura disponível para aplicar vacinas permaneceram os mesmos.

O resultado prático foi previsível: mais pessoas procurando vacinação com a mesma capacidade de atendimento anterior. As filas para outros procedimentos nas mesmas unidades de saúde frequentemente aumentaram, porque parte do tempo dos profissionais e das salas precisou ser redirecionada para a nova demanda. Leia a matéria sobre a vacina de Covid-19 aqui.

Caso 2: Implanon Como Contraceptivo

A decisão de disponibilizar o Implanon, implante contraceptivo subdérmico de longa duração, pelo SUS exemplifica claramente como avanços técnicos legítimos podem criar gargalos de acesso. O método é clinicamente superior a várias alternativas, oferecendo eficácia contraceptiva por até três anos com taxa de falha inferior a 1%.

A incorporação dessa tecnologia, porém, não foi acompanhada de expansão proporcional na capacidade de atendimento ginecológico. O implante exige consulta médica prévia, profissional treinado para inserção, procedimento ambulatorial com tempo dedicado e consultas de acompanhamento.

Cada mulher que consegue o Implanon ocupa tempo de agenda que antes poderia atender outras demandas ginecológicas. A procura por consultas na especialidade aumentou drasticamente após a incorporação, mas o número de ginecologistas no sistema público e os horários disponíveis não acompanharam essa expansão.

Mulheres que já aguardavam consultas para outras questões ginecológicas viram suas esperas se prolongarem. A incorporação melhorou a qualidade do cuidado contraceptivo disponível, mas piorou temporariamente o acesso global à ginecologia no sistema. Quer saber mais sobre o Implanon, leia nosso texto a respeito.

Caso 3: Tratamento Granulado Para Hepatite C Infantil

O SUS incorporou tratamento granulado específico para hepatite C em crianças, substituindo formulações líquidas ou comprimidos que eram inadequados para a faixa etária pediátrica. Tecnicamente, essa é uma decisão correta que melhora a aderência ao tratamento e os resultados clínicos.

O problema estrutural persiste: o número de hepatopediatras no Brasil é limitado, os centros habilitados para acompanhamento de hepatite C pediátrica estão concentrados em poucas capitais e a capacidade instalada desses serviços não foi expandida junto com a incorporação.

Crianças que antes não tinham acesso a tratamento adequado agora têm, o que é indiscutivelmente positivo. Mas crianças com outras condições hepatológicas que já aguardavam consulta com especialistas viram suas filas aumentarem. O gargalo não desapareceu, apenas se deslocou dentro do sistema. Mais informações sobre o tratamento nesse artigo,

Caso 4: A Não Incorporação dos Medicamentos Emagrecedores

Em 2026, o Ministério da Saúde recomendou explicitamente não incorporar medicamentos emagrecedores do tipo agonistas de GLP-1 ao SUS, decisão que gerou reação pública negativa mas que ilustra exatamente o raciocínio que estamos analisando.

A avaliação técnica considerou que incorporar esses medicamentos criaria demanda imediata na casa dos milhões de pessoas, dado que aproximadamente 60% da população brasileira adulta tem sobrepeso ou obesidade. O custo mensal por paciente desses medicamentos situa-se entre oitocentos e mil e quinhentos reais.

A incorporação não apenas consumiria parcela substancial do orçamento do Ministério da Saúde como criaria sobrecarga imediata em consultas de endocrinologia, cardiologia, nutrição e clínica médica. Pacientes com diabetes, doenças tireoidianas e outras condições endocrinológicas que já aguardam meses por consulta veriam suas esperas se multiplicarem.

Neste caso específico, a não incorporação funcionou como reconhecimento honesto de que criar acesso nominal sem capacidade real de atendimento apenas transfere o problema da inexistência da tecnologia para a inexistência de acesso efetivo à tecnologia que teoricamente existe. As canetas estão em alta, leia nossa matéria a respeito delas.

Por Que Isso Acontece Sistematicamente

A raiz desse fenômeno está na diferença entre decisão administrativa e implementação operacional. Incorporar uma tecnologia no SUS é ato administrativo que pode ser executado em semanas ou meses mediante análise técnica, consulta pública e publicação de portaria.

Expandir a capacidade instalada do sistema é processo estrutural que exige anos. Contratar e treinar profissionais de saúde depende de concursos públicos, vagas em programas de residência médica, tempo de formação e disposição desses profissionais para trabalhar no sistema público com os salários oferecidos.

Construir ou ampliar unidades de saúde exige licitações, obras, equipamentos, licenças e orçamento de capital, não apenas de custeio. Aumentar o número de leitos hospitalares ou salas ambulatoriais leva anos e requer investimento sustentado que frequentemente compete com outras prioridades orçamentárias.

O descompasso temporal entre incorporação tecnológica e expansão de capacidade é inevitável. A questão não é se esse descompasso ocorrerá, mas quanto tempo durará e quão grande será o impacto sobre as filas durante esse período de ajuste.

O Papel do Orçamento Limitado

Todo sistema de saúde universal opera sob restrição orçamentária. O SUS tem orçamento anual definido que precisa cobrir salários, medicamentos, procedimentos, equipamentos e insumos. Quando uma nova tecnologia é incorporada, especialmente se tem custo unitário alto, ela compete diretamente com recursos que poderiam expandir a capacidade de atendimento.

Cada real gasto comprando um medicamento novo de alto custo é um real que não está disponível para contratar mais um médico, abrir mais uma sala de atendimento ou ampliar o horário de funcionamento de uma unidade. Essa é uma escolha real, não uma abstração teórica.

Medicamentos biológicos para doenças raras podem custar dezenas ou centenas de milhares de reais por paciente ao ano. Esses medicamentos salvam vidas e sua incorporação pode ser a decisão correta, mas é ilusório imaginar que essa incorporação não impacta negativamente outras áreas do sistema.

Diferença Entre Qualidade e Acesso

A confusão pública sobre esse tema frequentemente deriva da não distinção entre qualidade do cuidado e acesso ao cuidado. Incorporações tecnológicas quase sempre melhoram a qualidade do cuidado oferecido a quem consegue acessá-lo. Um medicamento mais eficaz, um método contraceptivo mais conveniente ou uma vacina nacionalmente produzida são avanços qualitativos reais.

O acesso, por outro lado, mede quantas pessoas conseguem efetivamente receber esse cuidado em tempo clinicamente adequado. Você pode ter o melhor tratamento do mundo disponível teoricamente no SUS, mas se a fila é de dois anos, o acesso real é praticamente inexistente.

A tensão entre qualidade e acesso sob orçamento limitado é um dos dilemas centrais de qualquer sistema de saúde universal. Sistemas que optam por oferecer tudo de melhor e mais moderno frequentemente têm filas maiores. Sistemas que priorizam acesso rápido frequentemente oferecem tecnologias menos avançadas.

O Que Realmente Reduziria Filas

Se incorporações tecnológicas não resolvem filas, o que resolveria? A resposta é estrutural e pouco glamourosa.

Contratar mais médicos, enfermeiros e técnicos de forma sustentada ao longo de anos. Abrir mais unidades de saúde e ampliar horários de funcionamento das existentes. Construir mais leitos hospitalares e equipar mais salas cirúrgicas. Implementar gestão eficiente que reduza desperdícios, diminua taxas de não comparecimento e otimize fluxos.

Essas medidas exigem aumento real e permanente de orçamento, vontade política sustentada ao longo de múltiplos ciclos eleitorais e gestão profissional competente. São menos visíveis publicamente do que anúncios de incorporações tecnológicas, mas são as únicas que efetivamente expandem a capacidade do sistema.

Alguns países conseguiram reduzir filas em seus sistemas universais mediante expansão brutal de capacidade. O Reino Unido investiu massivamente no NHS entre 2000 e 2010, contratando dezenas de milhares de profissionais e construindo centenas de unidades. As filas diminuíram. Quando o investimento estagnou após 2010, as filas voltaram a crescer.

Perspectivas Realistas Para Pacientes

Se você é paciente aguardando atendimento no SUS, o que essa análise significa na prática? Primeiro, que anúncios de incorporação de novas tecnologias não devem criar expectativa de melhora no seu tempo de espera. Podem, inclusive, sinalizar piora temporária.

Segundo, que melhorias reais no acesso dependem de investimentos estruturais cujos resultados demoram anos para aparecer. Se sua cidade ou estado está investindo em construção de UBS, contratação de profissionais ou ampliação de horários, essas são as mudanças que eventualmente reduzirão sua espera.

Terceiro, que priorização clínica continua sendo o fator mais importante para acesso individual. Casos graves e urgentes conseguem furar filas porque o sistema, com todas as suas limitações, ainda tenta alocar recursos escassos onde o impacto clínico é maior.

A compreensão dessa mecânica não resolve o problema individual de quem espera, mas evita a frustração gerada por expectativas irrealistas criadas por anúncios de incorporações tecnológicas que são vendidos como soluções de acesso quando são, na verdade, avanços de qualidade que temporariamente pioram o acesso.

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